sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Como as bicas da infância


Pablo Picasso
Se pudesse, matava o pedreiro. Este foi o pensamento que me ocorreu no último sábado, depois de constatar que chovia em pelo menos três dos cinco cômodos da casa onde moro. Chovia como chovem as nuvens que ensaiam tempestade: as gotas varavam ininterruptamente por todas as frestas, brechas e fissuras – muitas, até então, desconhecidas.

Li em algum lugar, provavelmente em uma revista de sala de espera, que os dias de chuva podem dizer muito sobre a personalidade de alguém. Lembrei-me disso porque logo após o desejo homicida, fui tomada por um sentimento enorme de impotência. E à medida que via a água escorrendo pelas paredes, caindo pelo forro ou entrando pelas janelas dos quartos, meu espírito ia tombando derrotado.

A experiência me fez recordar de situações vividas no passado. E mesmo sabendo que tais lembranças não tinham nenhuma relação com as goteiras da casa, quis chorar por elas. Misturar-me às poças que se formavam no assoalho e deixar que o frio me invadisse com os lençóis, mantas e cortinas molhadas.

Mas o drama durou apenas o tempo necessário para que o espírito reconhecesse a estupidez de fraquejar por tão pouco. Respirei fundo e, quando as insistentes gotas de chuva alcançaram o computador e os livros espalhados sobre a mesa, eu já estava refeita. Pronta para arregaçar as mangas, subir as pernas da calça, prender os curtos fios de cabelo e colocar um pouco de ordem no caos.

Passei boa parte do sábado arrastando móveis, fechando com toalhas o vão das portas e janelas, espalhando vasilhas e enxugando o chão. E quando enfim percebi que não havia vitória sobre a chuva, arrumei o único quarto enxuto da casa e me mudei para lá com as crianças. Como o mau tempo atrapalhasse meu acesso à televisão e ao computador, deixei-me levar pelas histórias aleatórias que me surgiam à mente, embalada ora pelas risadas de minhas meninas; ora pela pancada surda no telhado e os assobios dos ventos em suas rajadas cortantes.

Os sapos faziam festa lá fora. Algumas aranhas saíram espantadas de suas tocas. Sem falar das lesmas, caramujos e outros seres asquerosos que deslizavam suave pelo piso da varanda.

Dormimos ouvindo a cantoria dos bichos. E na manhã de domingo, convencida de que não havia muito a fazer a não ser esperar, resolvi antecipar o almoço da semana. Depois fui conferir os pequenos estragos na casa e conclui que não era nada que um dia de sol não resolvesse.

Enxuguei cuidadosamente os fios do computador, mudei a máquina de lugar e arrisquei ligá-la em uma tomada comum: tudo certo.

Com a casa e o instrumento de trabalho em ordem, pude finalmente acompanhar os jornais, me inteirando sobre os desabamentos, a morte de dezenas de pessoas, as famílias desabrigadas, a falta de luz e o isolamento de alguns municípios de Santa Catarina por conta das chuvas.

E depois das trágicas notícias; do vento ameaçando arrancar as telhas, das goteiras, do quintal alagado, dos pertences molhados e dos bichos; depois de tudo, enfim, tive a resposta para algo que me inquietara no sábado chuvoso – uma pergunta silenciosa que fiz para mim mesma, quase envergonhada, enquanto o desânimo fraquejava as pernas: por que não corres lá fora e aproveita a chuva para tomar banho?

Lembrando antigas chuvas, percebi, com uma pontada de tristeza, que meus olhos não têm mais a inocência daqueles que um dia brincaram alegres nas bicas da infância.

7 comentários:

Márcia Corrêa disse...

É que há chuvas de inocência e chuvas que provocam medo e dor. Essas que caem sobre Santa Catarina não oferecem guarida às lembranças de infância. Talvez seus olhos estejam apenas mais sábios e atentos.

Alcilene Cavalcante disse...

Já vim aqui conhecer.

Mariléia disse...

tá lindo amiga!vc merece um espaço exclusivamente seu!continue distribuindo suas crônicas pelo mundo,todos merecem lê-las!!saudades

Marcos disse...

Conheci essa Vassia d afoto!!!! Era uma sapeca!!!!

Beijos e sucessos!!!

Marcos

Cefas Carvalho disse...

Parabéns pelo texto e pelo espaço novo e belo. Visitarei seus textos com frequência. Abração!

Cefas

marcos pardim disse...

salve vássia. vim aqui conhecer este teu novo espaço e acabei conhecendo também uma parte da infância da blogueira, quer seja pela foto ou pelo texto. aliás, a respeito deste, noves fora a tristeza da tragédia, fiquei aqui pensando que talvez a chuva também tenha perdido a inocência em nossas infâncias. 1 beijo.

Anônimo disse...

Olá, Vássia,

Que belo presente nos dás ao criar este seu próprio espaço para a leitura de seus textos. Estarei sempre bisbilhotanto por aqui, pegando embalo na correnteza de suas agradáveis "viagens", especialmente nos labirintos da memória.

Bj,

Isac