domingo, 24 de julho de 2016

Considerações amorosas a uma leoa

Dara Scully

                                                                                                        * Para Clara

Queria hoje poder encher teu coração de alegria, dizer do quão é vasto e belo e misterioso o mundo; te presentear com um raio de sol, de lua, um vento. Forte como Iansã. Porque é preciso (e isso posso dizer com conhecimento de causa) saber ventar. Desalinhar o que aparentemente está reto, revolver a poeira, as folhas, os galhos secos – A vida, minha pequena, é quase sempre uma ventania. Por isso penso que seja interessante aprenderes a dançar na tempestade: há que se fazer festa quando tudo parece estar perdido!

É preciso também olhar com curiosidade e fome o desconhecido, pois é lá que costuma morar a poesia. E enxergar o que não está visível aos olhos – isso pode significar muitas coisas, mas brevemente eu diria que é necessário reconhecer na sombra do ignóbil uma esperança de flor.

Sugiro que carregues contigo o rio de Heráclito para que lembres que tudo é mutável. Trocando em miúdos: não deixe que nada congele uma imagem sua – ou do mundo –, caminhe sem medo de mudar de vida, de casa, de emprego e, quando necessário, de opinião (posso estar errada, mas desconfio que só os idiotas temem rever alguns conceitos e ideias).

Seja generosa com as pessoas. Mas não deixe de observar o fato de que algumas nos tratam de forma tão nociva que há que se pesar, nesses casos, se a generosidade deve ser dada a elas ou a nós mesmas.

Confie na natureza: ela é sábia em tudo o que faz! Ame as árvores, as matas, os rios, os mares e os bichos, nossos irmãos. E por amá-los, desconfie de tudo o que lembra o esforço do homem em domesticá-los – porque no final das contas, nenhum animal nasceu para viver entre quatro paredes.

Seja solidária e não deixe jamais de se indignar com os homens, mulheres e crianças que morrem de fome e frio pelo mundo – ou nas esquinas de sua cidade. Não fique apática frente às grandes questões, ainda que isto signifique engrossar as fileiras dos que vivem à margem. Lute, com as armas que você tem, contra qualquer forma de violência (sobretudo aquelas sofridas pelas minorias) e a favor da justiça, da liberdade, da vida e do direito à diversidade no mundo.

Tenha amigos, ainda que sejam poucos. Saiba reconhecer que reside neles o abraço que muitas vezes precisamos. E aprenda, mesmo que para isso seja necessário sofrer um pouco, distinguir os amigos dos colegas. Esses últimos estarão com você nas horas de festa enquanto os primeiros podem passar décadas sem uma notícia e, ao reencontrá-los, será como se tivessem estado juntos na noite anterior.

Reverencie suas raízes e reconheça que, de uma forma ou de outra, há rios e cantos xamânicos correndo nas suas veias. Mas não finque, assim como as águas dos rios e a força dos xamãs, os pés em uma única terra sem antes ter viajado e conhecido outras paisagens, sotaques, culturas. O mundo é tão grande! Ouça-o e não deixe se prender pelas comodidades e modos de vida que o capitalismo nos vende como uma irrevogável verdade.

Seja simples em suas aspirações. Porque a vida é ventania, mas também simplicidade. No fim, você irá descobrir que tudo o que realmente importa são nossas lembranças e os momentos que vivemos com aqueles que amamos.

E o mais importante: não deixe que te digam como deves seguir o teu caminho (isso inclui a mim e possivelmente, ainda que isso possa me entristecer, tudo que leste até agora) porque ele é só teu e de mais ninguém.



quinta-feira, 10 de março de 2016

Telegrama II

Anja Millen

Para ler ouvindo Sigur Rós

Chove. Chove e faz sol. Tudo e sempre junto. O dia inteiro catástrofe. E pequenas alegrias. Um ronco de motocicleta violenta o silêncio das máquinas. Chove também nos pneus. Ouve-se o gozo da água no atrito. E o assobio atrasado do pássaro. Os gatos enfileirados na janela. O cachorro com tristeza de lua. Nada de rãs. A fome de obituário crescendo na entrelinha. Anotação para o futuro (que já é e nesse instante não é mais): abolir reticências. Cortejar o branco da página com a fundura. E a beleza dos buracos negros. Um pouco mais. Um pouco mais. A quinta, a derradeira, pendurada como judas em dia de. Chove. Chove e faz sol. Tudo e sempre junto. A noite toda catástrofe. E pequenas alegrias.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

O afago do mingau

Robert Doisneau

Para ler ouvindo As palavras

As palavras ressoam e provocam, sem permissão, a dança da menina. E ela gira, gira, salta entre sorrisos e crenças distribuindo ao vento a fugaz alegria. Tão ingênuos e famintos seus olhos! Puxo-a docemente pela mão (sinto tristeza ao vê-la entre as mandingas do amor) e tento tirar de seu rosto, agora tomado pela criação, o riso aberto da alma:

– Não se distraia, menina! O mundo é duro, o homem é duro.

Penso em dizer-lhe, amorosamente, de como anda volátil a vida. Mas são tão frágeis e ao mesmo tempo fortes seus músculos, sobretudo o pequeno e rubro coração, que me retraio envergonhada.

Há tempos fizemos um trato. A ela coube a leveza da brisa; a mim o peso do concreto, essa massa cinza e desconfiada das coisas. Mas quem, hoje, pode se fiar no bigode inexistente? (Ah, tantas e tantas vezes ela me deixou sem chão, destruindo, com uma única palavra, o modesto edifício que ergui à sombra de seus rodopios!).

Sei que é sem maldade, mas o fato é que a menina zomba de minhas inúteis tentativas de lhe educar para a vida entre os homens: e eu, ainda sentindo na face o roçar da ponta de seu vestido azul de bolinhas, caio cansada e muda em suas trampas.

– E se eu te der um chocolate? Queres mingau, farinha láctea, leite em pó com nescau?

Corro à cozinha e busco aveia, açúcar, leite, canela. O cheiro morno toma conta da casa. Gosto das borbulhas e do movimento rápido e preciso com a colher de pau: vigiar o fundo da panela. Deixo, então, esse calor da infância tomar conta de mim enquanto penso (mas silencio):

– Menina, menina! Aquieta teu coração, que a vida corre solta e veloz. Não há mais tempo para tuas acrobacias na Monareta lilás.

O mingau tem o efeito de um abraço ou cafuné de avó. O mingau até hoje me acalma.

sábado, 10 de outubro de 2015

Anotações a um amigo que parte

Reynaldo Fonseca

Para ler ouvindo Milton e Carminho 

Viver sustentando a carne e os ossos. Esse frio colossal que vem do abismo espantado, do fugaz instante entre o que se quis dizer e o que foi dito, asa de pássaro riscando o céu.

A verdade é que não há remédio para os dias cansados, mas um copo de conhaque sempre pode lareirar as noites frias. Dos encantos do álcool: embriaguez colorida, fortuna do velho espírito, a pedra esquecida do peso.

Não te contei dos murmúrios castellanos. Semelhanças. Invenções. Tampouco tive tempo de te falar dos segredos do mar – furiosa, a onda veio antes! –, esses miúdos que aqui e acolá consigo catar na areia do tempo.

O tempo... O tempo que há, e morre enquanto o afirmo. O mesmo que te viu nascer, e que transbordou em taças de vinho madrugadas adentro, que encharcou de bizarras figuras os versos escritos à espera do poema, lançou garras em meu sexo, mordeu o músculo, e morreu sem precisão.

Precisão. Dizem de Pessoa, sem saber. Imprecisão: isso é a vida em todos os seus caminhos. E sob a tenaz sombra, riem as fúrias. Agora mesmo, veja: gargalham minhas vilanias, antecedendo, no riso histérico, os pecados pelos quais expiarei.

Sentirei culpa? Ah, essa nódoa cristã! Quanto açoite em nome dela. Tantos que mesmo sendo eu, levianamente, desgarrada do bando sinto estalar entre as tatuagens das costas a invisível vergasta enquanto um novo fantasma sussurra: “acontece que tuas mãos eram pequenas e suaves. E tua voz, anímico retrato. Ouço-a agora mesmo, um estribilho acompanhando a partida”.

Partes. Partiste. E partirás sempre.

Partir de onde nunca se esteve. Imprecisões. Isso é a vida em todos os seus caminhos. 


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Das luas escuras

Nasa

                                                                              
Para J.M.B.Cunha
Ler ouvindo Lua,lua,lua

Curiosamente não são poucas essas luas. Nada sei de suas faces, ainda que me sejam tão caras. E acostumei-me a cultivá-las assim, respeitando seus territórios de neblinas e sombras. Aqui e acolá me é dado um relâmpago, espécie de senda que abre parcialmente o que antes era apenas sonho: caminho desnuda, os pés arrastando solo frio e musgoso, em uma terra que desconfio existir no tempo que não foi, não é, não será.

De quantas mulheres são feitas essas luas? Provavelmente minha tataravó pudesse responder, não fosse ela mesma, um pedaço de matéria lunar. A tataravó: que imagens lacrimejavam em seus olhos quando eu ainda não podia existir sequer em pensamento? Lua escura, esta! Negra como o pelo do gato que atravessa o sinal na noite e esbanja, quiçá por cansaço, a sétima e última vida.

As luas, essas escuras, senhoras dos territórios de neblinas e sombras, me guiam ao grito ou ao completo silêncio. Uma questão de humor, imagino – flutuante, instável, não-linear. Gostam de mato e brisa. No primeiro acredito que haja uma sensação milenar de aconchego, daqueles que assustam e aquecem; e no segundo, a improvável leveza. Por isso, tanto vagar! Tantas despedidas, promessas, adeuses. Rastros que espalham, sei lá se na vida ou na alma dos outros, partículas tão insignificantes de mim que chego a pensar que nada mais sou além de um espectro.

E quantos caprichos têm as luas! Acontece às vezes de me fazerem amanhecer inverno, quando lá fora o sol segue a pino secando lençóis e fazendo gotejar a fronte dos que varrem as ruas para que pareçam ser o que são: caminhos de descobertas e esquecimentos. Em outras, adormeço verão, sentindo na pele o roçar felino do cobertor hipoalergênico.

Hoje, acharam por bem fazer-me não apenas caminhar até a beira do precipício, mas olhar para baixo: como é grande e assustadoramente bonito o vazio! Sinto nos pés um formigamento, uma atração nuclear, e não fosse o ato involuntário de piscar os olhos talvez minha matéria fosse agora outra – e não esta que carrego nas mãos trêmulas, ainda úmidas dos lamentos emprestados por mulheres desconhecidas.

Dizem-me tanto essas luas.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Abril sem fumaça

Oleg Oprisco

Para ler ouvindo Yann Tiersen 

Gosto de abril. Descobri que é perfeito na hora de preparar o espírito e a casa para os dias frios que logo chegarão. Lavar cobertores, arrumar agasalhos, espalhar tapetes pelos quartos. Faz-me recordar do tear. Aquele que passou todo o verão escondido e agora parece sussurrar: “Ainda posso cumprir as promessas do inverno passado”.

Por todo abril, caminhei procurando árvores nuas. Mas os morros da ilha revestem-se de verde e apenas uma ou outra espécie rasga o céu com seus galhos desnudos. Ainda assim, abril me enternece. Gosto do cheiro úmido que sinto no ar, no final da tarde, e do barulho das folhas no chão, quando arrastadas pelo vento. Tais impressões me levam a pensar na obviedade do charme outonal. Sim, abril ficou ainda mais bonito.

Mas, mesmo reconhecendo isso, não posso afirmar que o outono seja a única razão de minha empatia. Porque a verdade é que tudo me encanta mais nesta época do ano, esteja eu onde estiver. No Acre, terra onde passei a maior parte da minha vida, o mês de abril chegava trazendo alegria nas últimas chuvas do inverno amazônico. Era o fim da lama, acompanhado da abertura de estradas e ramais – até então, isolados pela estação chuvosa. Uma trégua que acalmaria também as tristonhas orquestras de sapos – aquietando meu coração, tão inclinado à melancolia.

E, se eu tivesse que expressar em uma única palavra o significado de abril, eu diria: promessa. Porque seco ou úmido, seu ar sempre exalou um odor de espera. A espera pelo fim da chuva; por um dia de sol para secar as roupas e, agora, pelo frio.

Mas há algo, neste abril, me entristecendo. Uma voz constante, uma contagem progressiva martelando na minha cabeça. Agora mesmo, ela avisa: você acabou de completar 27 dias, duas horas e 35 segundos sem fumar. Tento silenciá-la, gritando “Deixe-me em paz, quero apenas seguir olhando abril”, mas de nada adianta. Porque o relógio invisível segue contando os segundos, os minutos, as horas dessa agonia. E eu, que queria apenas contemplar as manhãs de abril, sinto-me massacrada pela ausência daquele que foi, por 17 anos, meu companheiro de todas as horas.

Então saio à rua. Distribuo “bons dias” aos vizinhos e sigo para a padaria. Lá, entre o pão e o troco, há sempre algum desconhecido disposto a escutar-me dizer “parei de fumar”. Porque é imperioso que eu repita isso. Não para que os outros saibam, nem mesmo para ouvir as felicitações. Mas para que eu mesma escute. E não esqueça da promessa de que este esforço me devolverá a respiração fácil, o olfato apurado, o paladar aguçado e um pulmão novinho, em dez anos.

Até lá, sigo me esquivando dos açoites invisíveis. Das chicotadas que cortam minha carne em meio às madrugadas, abrindo enormes interrogações. Conseguirei escrever sem o cigarro? Ah, essa promessa que é abril...

Abril simplesmente me soa poético. É o mês no qual mais tempo eu gasto contemplando a chuva ou o sol.


P.S.
Crônica escrita em um abril perdido no passado e incluída em meu livro Indagações de Ameixas (Multifoco, 2011). 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Cáucaso felino

Dan Marbaix

Acontece em dias como o de hoje, quando a chuva mancha de cinza o céu e os carros no asfalto se assemelham ao tique-taque dos antigos relógios, de eu despertar pensando na vida. Isso inevitavelmente me leva às miudezas do cotidiano. Portanto, leitor, se você se ocupa com coisas grandes e não tem tempo a perder, sugiro que deixe de lado este texto: é pequeno e inútil o que vou contar.

Trata-se da desventura do gato da vizinha. O bichano, que a partir de agora chamarei de Prometeu, chegou à casa de baixo acompanhado de seus donos (um casal e duas crianças), uma cadela e dois filhotinhos de pastor alemão. E porque há uma predisposição a respeitar aqueles que dividem suas camas com os animas, sobretudo cachorros, os demais moradores da rua não tardaram a alegrar-se: que bela família!

Devo confessar, não sem uma ponta de pudor, que cheguei a sentir inveja: os novos vizinhos ressaltavam a minha inabilidade com os cães e ao vê-los reunidos harmoniosamente entre 12 patas caninas, eu me sentia menos gente.

Não tenho dúvidas de que tal sentimento teria crescido a ponto de me prostrar, não fosse o apego que tenho às misérias do cotidiano. E é aí que entra o Prometeu. Uma semana após a instalação da família e com a rotina da casa já extravasando as paredes, pude saber, graças ao pobre felino, do horário em que as crianças vão à escola e do tempo que passam investigando o mundo na ausência dos adultos.

Agora, por exemplo, tudo é silêncio lá embaixo. Logo mais, o portão de ferro irá ranger, os cachorros latirão, ouvirei em seguida uma pressão maior na porta de madeira e vidro – será um chute do pequeno? – sugerindo que a mesma está emperrada, e depois o barulho das tampas das panelas e o riscar dos talheres nos pratos. Em seguida, a televisão será ligada e dependendo do humor entre os irmãos, a disputa para a escolha do canal se dará em meio a gritos e o aumento ensurdecedor no volume do aparelho.

O vencedor é dado a conhecer graças a Prometeu. Não fico feliz em constatar isto, mas após seus exaustivos e agonizantes miados, cheguei à conclusão de que quando o trono televisivo é do irmão, a menina afoga sua ira no bichano. No primeiro dia que o escutei gritar, corri escada abaixo pensando que o filhote estava sendo açoitado pelos cães. E mal pude disfarçar o terror ao vê-lo engasgado nas mãos da menina: “Faça isso, não, minha flor. Desse jeito você vai matar o bichinho”, tive vontade de dizer, mas confesso que parei na primeira frase. E ao ver aqueles pequenos olhos brilhando de satisfação, voltei para casa me sentindo vazia e desconfiada da inocência das crianças.

Com o passar dos dias, descobri que uma pequena de cinco anos pode ter muita ira para afogar. E a julgar pela condescendência paterna – acho que não contei antes, mas cheguei a descer em outra ocasião e encontrei-a enforcando o gato ao lado do pai –, a origem de tal sentimento não se limita à escolha de um programa televisivo.

Desde então, me aflige o destino de Prometeu. E minhas tardes, antes silenciosas, são agora como o bico da águia mitológica: uma eterna promessa de morte. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A morte e seu chicote

Robert Doisneau

Não sei do que se passa com os anjos, mas parece que eles gostam de festa. Tal ideia me vem à cabeça em dias como o de hoje, quando junto à chuva recebo a notícia de que mais um conhecido se foi. A morte, sempre tão estúpida, surge, então, a minha frente como um letreiro iluminado.

Vago, sem querer, na infância – quando o pensamento de tornar-me órfã era uma necessidade de experiência. E como se no exercício da ficção fosse possível aprender a domar o vazio, eu fechava os olhos e imaginava a vida sem pai ou mãe. Miúda, miúda dor. O desamparo brotando em lágrimas e, demorasse mais um pouco, em choro convulso. E o que sabia eu da morte? Nada.

“Você será viúva cedo”. A sentença foi dada por uma cartomante, tinha eu, sei lá quantos anos! De fato e de direito, nunca fui viúva. Mas não deixo de pensar nos amores e sonhos que enterrei – não arrisco contabilizá-los porque tenho horror a tumbas! – ou nesta face branca, marcada por profundas olheiras, que me acompanha e vez ou outra sussurra para que eu não esqueça: Já não estou contigo, já não estou contigo.

E o que é a morte diante de tanta presença? Porque o cheiro permanece, acredite. E vem nos visitar nas horas mais distraídas. Então o abismo abre sua enorme boca, vertigem. Desejo de mergulhar no rio do esquecimento, onde não há o cheiro, onde não há a voz, onde não há o calor.

O nada parece ser o chicote da morte. E ela, senhora das sombras, usa-o sem dó ferindo nossas costas, tão carentes de abraços; as mãos, os pés em noites de frio.

É esse chicote que ouço estalar quando o cheiro dela roça minhas narinas. E me transporta, a despeito da dor, para aquela sala de cimento queimado, onde na grande mesa ela servia os pratos com a comida fumegante. E perguntaria com doçura: você quer que eu faça ovos estrelados? Sim, eu gosto de ovos “estrelados” – jamais ousei corrigi-la!

E então, a despeito de ser quinta, me dou conta de que o nada ocupou todo o espaço. E é esta, pelo menos até agora, a única coisa que posso dizer da morte: o mundo fica um pouco menor.