quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Inferno na Terra


Toby Vandenack

“Nos primeiros sete anos, foi só felicidade; mas nos dois últimos, vivi um inferno na terra!”. Subi a cabeça, até então apoiada na janela do ônibus, e mirei o rapaz que acabara de soltar a frase. Lembrei de tê-lo visto no terminal, enquanto comprava água: tinha os cabelos pretos, vestia bermuda larga com camiseta, calçava tênis e trazia às costas uma dessas mochilas grandes, usadas em acampamentos.

Não costumo prestar atenção à conversa alheia, mas neste caso, ainda que me envergonhe confessar, fui mordida pela curiosidade. Não pela história em si, afinal os relacionamentos, por mais diversos que sejam, se assemelham no começo e no fim. O que me intrigou ali foi o tom, o suspiro que pontuou o desabafo do rapaz. Fosse uma mulher, certamente eu teria continuado a viagem embalada apenas pela paisagem urbana, mas não é comum essa aflição masculina. E menos ainda a necessidade de desabafar com um estranho. Sim, era a um estranho que ele contava suas dores.

O ônibus estava lotado e o moço que servia de ouvinte tinha subido na terceira ou quarta parada, encostando ali mesmo, pertinho do cobrador. Seguiam lado a lado e indiferente às pessoas ao redor, o rapaz da mochila continuava a falar. “A gente se conheceu em uma festa e duas semanas depois, eu já pensava em casar”... “Você é casado?”... “É, hoje eu penso assim também: o bom mesmo é namorar. Namorar bastante!”.

Alguém atrás resolveu ligar um som e o barulho da música impedia que eu ouvisse a conversa. Irritada com a impossibilidade de acompanhar a história, cheguei a pensar em me levantar, cedendo o lugar para outra pessoa. Mas não foi necessário: preocupado, talvez, que o companheiro perdesse os detalhes de sua desdita, o rapaz passou a falar mais alto. “Pois sabe que por causa dela larguei tudo em São Paulo e vim parar em Floripa? A gente já tinha brigado, mas uma noite ela me ligou chorando, dizendo que estava arrependida, que me amava, essas coisas... Eu não pensei duas vezes: catei umas roupas, peguei o carro, a estrada e vim pra cá”.

O ônibus sacolejava e o calor ia aumentando à medida que mais passageiros subiam no veículo. O rapaz da mochila estava agora imprensado, e seu corpo inclinava-se todo para frente. Ainda assim, ele continuou “E sabe o que aconteceu? Dois dias depois ela jogou minhas coisas pela janela!! Tudo na rua!!”.

Tive vontade de rir, mas me controlei. O outro, ao contrário, riu; balançou a cabeça e deixou os olhos correrem a extensão do veículo, buscando, quem sabe, um refúgio. Mas não havia como escapar: tinha sido eleito ouvinte, estava ali ao lado e não tinha para onde se mexer – certamente não estava disposto a descer e a pagar mais uma passagem apenas para se livrar da situação.

Prosseguia, então. E balançava a cabeça, vez ou outra, dando a entender que compreendia o sofrimento daquele que desconhecia o nome, mas não a tragédia. “Ah, mas sabe que depois ela desenhava corações na praia? É verdade! E a gente passava a noite ali na areia, fazendo juras de amor”. “Ainda bem que não tivemos filho, senão a coisa ia ser mais feia. É que nos últimos meses ela não me deixava mais trabalhar. Eu não sei... às vezes fico pensando que ela enlouqueceu, virou uma obsessão, saca?”.

O outro meneou a cabeça e para minha surpresa, perguntou: “Você não pensa em voltar pra Sampa?” Não queria olhá-los diretamente, mas sentia as agulhadas da curiosidade ferindo minha carne. E me ergui na cadeira, como se o fato de estar mais ereta tornasse melhor minha audição. “Tem dia que dá vontade de chorar... Porque é dura a solidão, você acordar e dormir, dias e dias sozinho, sem ninguém pra te escutar...”.

De repente alguém fez sinal e o motorista parou o ônibus. Um bando de crianças subiu fazendo algazarra. Olhei aterrada para o rapaz da mochila. Ele continuava falando e, desta vez, gesticulava tranqüilo – ao passo que o outro estava agora com o olhar fixo, como se enfim, algo houvesse lhe tocado realmente a alma – mas para meu desespero, não conseguia mais ouvi-lo.

Sem saber o fim da história, levantei da cadeira, desci do ônibus e segui meu caminho, escolhendo as ruas mais largas e silenciosas da cidade.


4 comentários:

Rafael disse...

Adorei todos os textos, espero que meu chefe nao leia esse comentario e veja o que eu faco em minhas horas de trabalho...rs. Mas essa cronica me deixou com a pulga atras da orelha, e me fez lembrar os tempos de botequim no Rio (ta certo, nao faz tanto tempo assim) onde sempre nos deparamos com um relato parecido (se nao identico).
Parabens prima pelo espaco, agora tens mais um fa pra acompanhar... Toda Quinta!!
Beijao!
P.S.: Desculpe pela falta de acentuacao, ainda nao instalei a versao em portugues do meu teclado (talvez por falta de tempo ou preguica, ta dificil definir...rs)

Márcia Corrêa disse...

Ah, não... Vássia! O que aconteceu com ele? Dava um curta eim? A maluca possessiva trouxe o cara de Sampa e depois jogou as coisas dele pela janela...

(d)ela disse...

Lindo espaço.
Obrigada pela adorável visita.

Um beijo,

Infinito particular

Cristina disse...

Gostei muito. Adoro a arte dos pequenos contos. A história não acaba; continua sempre dentro da gente.