quinta-feira, 2 de abril de 2009

A Espera

Alan Klug

Há uma história esperando para ser escrita...

Mas que aflição são as contas, o supermercado, a feira, os desejos que a vida diária obriga a deixar suspensos no porvir: “Compra um sorvete?”, “Vamos ao cinema?”, “Me dá um cachorro?”. Não é comum me deixar levar por tão pequenas angústias – pois há sempre a consciência da verdadeira miséria, o abandono aviltante que faz grudar nos ossos, a pele; e mata de fome, de bala, de sede.

Então olho o mar. Percorro aquela imensidão sem pressa. Banho-me dos mistérios que guardam suas invisíveis garrafas, naufrágios, oferendas. Sem pensar duas vezes, mergulho. Passeio por extensos jardins aquáticos; vejo corais, medusas, peixes que desconheço o nome. Sigo como enfeitiçada, e quase toco o fundo do escuro-sem-nome... Mas um descuido, e pronto: Coisas terrenas me arrancam do mar!

Não, senhor, não busquei fama. Vivi de acordo com o que a vida me proporcionava e na medida em que o cotidiano não sufocasse, de todo, meus sonhos – despretensiosos, quase ingênuos. O desapego, no entanto, não é sinônimo para contrato de felicidade assinado com o divino. Feita a afirmação, compreendo e acho justo que me apontem o dedo querendo saber – “O que entendes sobre isto?” Ao que respondo, sem medo: nada. Apenas aprendi que sob céu e acima das profundezas da terra, os sonhos mais simples podem nos custar caro. Porque o viver, afinal, manda fatura também aos tolos.

Lá longe avisto o infinito, o além. Uma vaga idéia de alheamento cresce sem que eu possa, sobretudo no instante em que o sol se derrama na sombra cinza das águas, freá-la. Escolho aleatoriamente uma onda e sigo-a em seu percurso de calma. Por quantos rochedos ela se perdeu durante a noite? Em quantas praias quebrou até chegar aqui, neste murmúrio de reza? Antes que me venham respostas, toma conta de mim um misto de candura, esperança e força – a compreensão tem nome de mulher.

O cobrador reclama do aglomerado próximo à roleta do ônibus, “Ô, pessoal! Vamo chegar pra trás que ainda tem espaço lá, ó! Espreme aí, dona Maria!”. O rumor de passos me traz à memória a lembrança antiga, tão antiga que não sei descrevê-la. É possível que venha dela essa saudade frouxa, o riso de criança que ouso escutar. Será real ou fará ele também parte dessa imagem rebuscada que brinca, agora, com minhas angústias mais profundas?

Olho uma vez mais o mar. Ele me explica e faz com que eu me recorde, quando estou prestes a fraquejar, o motivo de ter escolhido este, ao invés de outro caminho.

Sim, das poucas certezas que tenho guardo a de que não falarei de charutos cubanos, vinhos do Porto ou incursões gastronômicas a países exóticos. Não descreverei as lombadas, o cheiro, as estantes centenárias de livrarias européias. Nem tampouco os cafés parisienses, o tango na Praça de Maio, as fantásticas obras do Louvre, Metropolitan ou Museu do Prado. Também me esquivarei de listar livros, Cds e filmes comprados; E nunca, jamais, procurarei palavras para zombar, com falsa humildade, do porteiro, da empregada, da cozinheira.

Claro que nada disso faz parte da minha vida – o que pela lógica torna aparentemente simples tal decisão. Mas a verdade é que busco, com um arrepio constante de frio, as palavras despidas de sua glória, perfume, elegância e distinção. Talvez porque já faça parte de mim a incerteza, corda translúcida na qual sigo equilibrando o viver dia sim, dia não também.

Há uma história esperando para ser escrita. E todos os dias faço silêncio, pensando ouvi-la.

2 comentários:

Rafael disse...

Prima, dentre muitos pensamentos que correm em minha mente ao ler seus textos, so consigo redigir essa singela frase:
Parabens pelos maravilhosos textos, fico cada vez mais seu fã. Continue sempre assim, ao menos "todas as quintas"!
Beijão minha prima, e pode continuar me avisando sobre os novos textos viu!

Márcia Corrêa disse...

Acho que é tempo mesmo de simplicidades. Os enfeites das palavras e da vida mofam no sótão da inutilidade. Chegar a essa simplicidade lúcida, clara, inteligente e comprometida com a essência das coisas não é tão simples. E aí reside o paradoxo para quem ousa expressar-se nessa busca. A história está sendo escrita, é que a gente não se dá conta disso, penso...