*Comece ouvindo a versão para piano de La Valse d´Amelie
Leitor anônimo:
Seu comentário à última crônica feriu-me como ferem as cartas anônimas. É verdade que eu nunca as recebi para comprovar e acho até que nem existem mais! Mas a literatura é farta em exemplos do efeito devastador deste gênero – com seus autores sempre tão fadados às paixões e, muitas vezes, cheios de farpas, venenos, açoites.
Não é este o seu caso, claro – ainda que eu tenha que admitir que o uso da palavra “redonda” em seu texto foi para mim como uma chibatada de corda molhada nas costas. Ah, mas isso é assunto para outra crônica! O que importa agora é que me aproveito da modernidade – do contrário, como eu poderia responder-lhe se nada sei a respeito do seu rosto, nome ou sexo? – para puxar um dedo de prosa e falar a respeito da poesia no lar.
Pois bem. Concordo com sua idéia de que “há poesia, falada e escrita, dentro do lar (...)”, e digo-lhe mais: Não fosse ela eu dificilmente estaria agora sentada à janela, sentindo o cheiro reconfortante do café que enche minha xícara; nem tampouco ouvindo o riso das meninas que brincam de bola no quintal e o latido alegre do cachorro na casa vizinha – a esta hora eles costumam ficar soltos, correndo ao redor da construção. Também não estaria avistando a montanha que circunda nossa casa, o céu de um azul que parece se despedir do inverno, nem os quadros ou fotografias que tenho por hábito pendurar nas paredes.
Minha queixa foi – e sempre será – contra a rotina esmagadora dos afazeres domésticos. Então é provável que eu tenha exagerado ao usar a palavra “lar”. Mas, veja: não é no lar que se escondem as pilhas de louça, as roupas sujas, a poeira nos móveis, a sujeira no chão? E admitindo que sim, me diga: será realmente possível que eu seja a única mulher, mãe e profissional – sem empregada doméstica em casa nem ajuda de faxineira – que reclame do tempo consumido para que tais coisas sejam feitas, cotidianamente?
Ora, pois que seja: não acredito mesmo na poesia da vassoura! Creio, sim, na poesia pressentida nos barulhos da casa; na que extraímos do colorido das roupas estendidas no varal; na que repousa nas sombras e luzes que demarcam os aposentos. Na poesia dos cheiros que tem o lar: o de madeira úmida, das flores, dos incensos, das pessoas que amamos, da comida fumegando no fogão, do piso encerado, da varanda recém lavada...
Acredito na poesia das coisas simples, da gente simples, da vida simples. Essa riqueza sem tamanho que encontramos nas coisas genuínas, nos corações feitos de terra e sereno; poesia cujos caminhos são tão secretos e misteriosos quanto um poema ou um tacho de doce de Cora Coralina – este último, é claro, não tive a sorte de provar.
Deixemos quieta, portanto, a poesia do lar. Não há razão para misturá-la com a miudeza ou o tempo carrasco dos afazeres domésticos.
Leitor anônimo:
Seu comentário à última crônica feriu-me como ferem as cartas anônimas. É verdade que eu nunca as recebi para comprovar e acho até que nem existem mais! Mas a literatura é farta em exemplos do efeito devastador deste gênero – com seus autores sempre tão fadados às paixões e, muitas vezes, cheios de farpas, venenos, açoites.
Não é este o seu caso, claro – ainda que eu tenha que admitir que o uso da palavra “redonda” em seu texto foi para mim como uma chibatada de corda molhada nas costas. Ah, mas isso é assunto para outra crônica! O que importa agora é que me aproveito da modernidade – do contrário, como eu poderia responder-lhe se nada sei a respeito do seu rosto, nome ou sexo? – para puxar um dedo de prosa e falar a respeito da poesia no lar.
Pois bem. Concordo com sua idéia de que “há poesia, falada e escrita, dentro do lar (...)”, e digo-lhe mais: Não fosse ela eu dificilmente estaria agora sentada à janela, sentindo o cheiro reconfortante do café que enche minha xícara; nem tampouco ouvindo o riso das meninas que brincam de bola no quintal e o latido alegre do cachorro na casa vizinha – a esta hora eles costumam ficar soltos, correndo ao redor da construção. Também não estaria avistando a montanha que circunda nossa casa, o céu de um azul que parece se despedir do inverno, nem os quadros ou fotografias que tenho por hábito pendurar nas paredes.
Minha queixa foi – e sempre será – contra a rotina esmagadora dos afazeres domésticos. Então é provável que eu tenha exagerado ao usar a palavra “lar”. Mas, veja: não é no lar que se escondem as pilhas de louça, as roupas sujas, a poeira nos móveis, a sujeira no chão? E admitindo que sim, me diga: será realmente possível que eu seja a única mulher, mãe e profissional – sem empregada doméstica em casa nem ajuda de faxineira – que reclame do tempo consumido para que tais coisas sejam feitas, cotidianamente?
Ora, pois que seja: não acredito mesmo na poesia da vassoura! Creio, sim, na poesia pressentida nos barulhos da casa; na que extraímos do colorido das roupas estendidas no varal; na que repousa nas sombras e luzes que demarcam os aposentos. Na poesia dos cheiros que tem o lar: o de madeira úmida, das flores, dos incensos, das pessoas que amamos, da comida fumegando no fogão, do piso encerado, da varanda recém lavada...
Acredito na poesia das coisas simples, da gente simples, da vida simples. Essa riqueza sem tamanho que encontramos nas coisas genuínas, nos corações feitos de terra e sereno; poesia cujos caminhos são tão secretos e misteriosos quanto um poema ou um tacho de doce de Cora Coralina – este último, é claro, não tive a sorte de provar.
Deixemos quieta, portanto, a poesia do lar. Não há razão para misturá-la com a miudeza ou o tempo carrasco dos afazeres domésticos.
* E termine ao som da versão para orquestra


