sábado, 1 de agosto de 2009

A poesia no lar

Ralph Steiner


*Comece ouvindo a versão para piano de La Valse d´Amelie

Leitor anônimo:

Seu comentário à última crônica feriu-me como ferem as cartas anônimas. É verdade que eu nunca as recebi para comprovar e acho até que nem existem mais! Mas a literatura é farta em exemplos do efeito devastador deste gênero – com seus autores sempre tão fadados às paixões e, muitas vezes, cheios de farpas, venenos, açoites.

Não é este o seu caso, claro – ainda que eu tenha que admitir que o uso da palavra “redonda” em seu texto foi para mim como uma chibatada de corda molhada nas costas. Ah, mas isso é assunto para outra crônica! O que importa agora é que me aproveito da modernidade – do contrário, como eu poderia responder-lhe se nada sei a respeito do seu rosto, nome ou sexo? – para puxar um dedo de prosa e falar a respeito da poesia no lar.

Pois bem. Concordo com sua idéia de que “há poesia, falada e escrita, dentro do lar (...)”, e digo-lhe mais: Não fosse ela eu dificilmente estaria agora sentada à janela, sentindo o cheiro reconfortante do café que enche minha xícara; nem tampouco ouvindo o riso das meninas que brincam de bola no quintal e o latido alegre do cachorro na casa vizinha – a esta hora eles costumam ficar soltos, correndo ao redor da construção. Também não estaria avistando a montanha que circunda nossa casa, o céu de um azul que parece se despedir do inverno, nem os quadros ou fotografias que tenho por hábito pendurar nas paredes.

Minha queixa foi – e sempre será – contra a rotina esmagadora dos afazeres domésticos. Então é provável que eu tenha exagerado ao usar a palavra “lar”. Mas, veja: não é no lar que se escondem as pilhas de louça, as roupas sujas, a poeira nos móveis, a sujeira no chão? E admitindo que sim, me diga: será realmente possível que eu seja a única mulher, mãe e profissional – sem empregada doméstica em casa nem ajuda de faxineira – que reclame do tempo consumido para que tais coisas sejam feitas, cotidianamente?

Ora, pois que seja: não acredito mesmo na poesia da vassoura! Creio, sim, na poesia pressentida nos barulhos da casa; na que extraímos do colorido das roupas estendidas no varal; na que repousa nas sombras e luzes que demarcam os aposentos. Na poesia dos cheiros que tem o lar: o de madeira úmida, das flores, dos incensos, das pessoas que amamos, da comida fumegando no fogão, do piso encerado, da varanda recém lavada...

Acredito na poesia das coisas simples, da gente simples, da vida simples. Essa riqueza sem tamanho que encontramos nas coisas genuínas, nos corações feitos de terra e sereno; poesia cujos caminhos são tão secretos e misteriosos quanto um poema ou um tacho de doce de Cora Coralina – este último, é claro, não tive a sorte de provar.

Deixemos quieta, portanto, a poesia do lar. Não há razão para misturá-la com a miudeza ou o tempo carrasco dos afazeres domésticos.

* E termine ao som da versão para orquestra

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Grandes escritores

Tony Koukos

No começo do ano uma colega do curso de Letras perguntou à professora de Teoria da Narrativa por que só havia grandes escritores (homens) na literatura. Lembrei disso, juro, não porque a casa está uma bagunça, o chão precisa ser varrido, as crianças estão de férias e há uma pilha de louça na cozinha esperando ser lavada. Mas porque não consigo imaginar Virginia Woolf (nem qualquer outra grande escritora) esmagada pelo cotidiano triste e sem esperança da vida doméstica.

Corro o risco, eu sei, de ser mal interpretada com o que vou dizer agora. Mas vamos lá: acho que boa literatura pode nascer do desvario, do descaso, da desesperança com o mundo, do medo, da violência, da fome, do sofrimento, da paixão. É possível até que nasça da alegria, do amor, da constância, do desejo, do sonho, da ternura, da esperança. Mas nunca, nunca da monotonia do lar – mesmo no caso de autoras que revelam, em sua poesia, o dia-a-dia da moça na janela, na cozinha, no pomar.

Porque não se faz literatura com o feijão no fogo. E por uma razão muito simples: escrever é esquecimento. E nada me convence do contrário. Muito menos declarações como a que o Cristóvão Tezza deu quando participou do Projeto Dedo de Prosa, na Universidade Federal de Santa Catarina. Eu não morava ainda em Florianópolis, mas li a entrevista no site do autor e ri quando ele disse que enquanto escrevia o Trapo estava desempregado e apenas a esposa trabalhava. “Eu era o dono-de-casa, ao invés dela (a esposa) ser a dona-de-casa”.

Até aí, tudo bem. Afinal sabemos que existem homens que ajudam a cuidar dos filhos e até dão uma mãozinha com a louça do almoço ou do jantar. Agora quando o Tezza explicou que o livro foi todo escrito na madrugada – das 10h às 3h da manhã –, pensei: esse dono-de-casa tinha uma ajudante! Ora, não conheço ninguém que consiga, depois de passar a madrugada produzindo literatura, levantar às 7 da manhã, fazer o café, arrumar as crianças pra escola e começar a ver o que será o almoço do dia!

É triste admitir, mas são forças muito distintas a da literatura e a do lar. Sei que em ambas residem o amor e a necessidade de entrega. Mas ao contrário do lar, a literatura não cobra horários fixos, bom humor, tranqüilidade. Arrisco dizer, até, que ela pede um pouco de desordem. Não a desordem das coisas ou dos sentimentos, mas uma desordem temporal.

Por outro lado, ela também é tirana: não há como encaixá-la em intervalos. Sei que parece incoerente, já que acabei de dizer que a literatura não cobra horários. Mas é que a ela não interessa senão o tempo inteiro, o tempo todo, o tempo necessário para que a vida surja nas folhas ou na tela.

Um tempo que não pode concorrer com a louça suja na pia; com o tempo de coar o café, comprar o pão, colocar a mesa. Nem tampouco com o de separar as roupas sujas, lavá-las e depois estendê-las. Ou com o tempo que a água leva para ferver, no fogão, até que possa ser usada para fazer o arroz; o tempo de descongelar a carne, o frango, o peixe; o tempo de ver que o óleo acabou e que precisa ir ao mercado.

Ah, como é triste e sem poesia o tempo do lar!

E antes que algum leitor pule indignado com minha opinião sobre a vida doméstica, explico logo que acredito na existência de almas superiores, capazes de encontrar poesia na louça, nos tapetes empoeirados, nos vasos de plantas, na cozinha. Eu, infelizmente, nunca tive propensão à superioridade – seja lá de que espécie! Sou uma alma fadada às misérias mais humanas: raiva, fome, desesperança, ciúme, medo, inveja, preguiça. Uma presa fácil para o diabo, uma alma com lugar certo no reino subterrâneo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O cavalheirismo morreu


O título acima era a frase inicial de uma crônica sobre o enterro definitivo da gentileza masculina. Há uma semana tento escrevê-la, mas todos os esforços de dar continuidade a idéia expressada por tal sentença se mostraram inúteis: ela permaneceu muda no arquivo do computador, na folha deixada sobre a mesa e no pequeno caderno de anotações que carrego na bolsa.

Uma coisa que aprendi nos últimos anos é que quando um texto resolve virar as costas para você, não há muito a ser feito. Porque os textos têm vida própria, e mesmo os de natureza generosa, não costumam se dobrar a vontade alheia. Claro que saber disso não impede o sofrimento com o silêncio da história que insiste em esconder sua face, mas fez crescer em mim um sentimento até então desconhecido, a benevolência comigo mesma.

É interessante como a vida pode ficar mais leve se exercemos a benevolência, a tolerância. No meu caso, por exemplo, a descoberta de que não adianta passar noites em claro à espera de um texto serviu para devolver o gosto pelo sono profundo, colocar em dia os filmes atrasados, vagabundear o pensamento e diminuir as manchas negras sob os olhos.

A regra, no entanto, não se aplica às palavras. Sim, porque uma coisa são os caprichos de um texto – que se esconde, dorme, engana, escapa – e outra, a ausência das palavras. Essa névoa cinza e úmida capaz de imobilizar os músculos, os gestos, o olhar. Tenho medo desse silêncio. Porque ele não fere somente a alvura da tela ou da folha de papel, mas aquilo que há de mais misterioso no homem: seu espírito.

Isso talvez explique o fato de eu estar aqui, agora, brigando com as palavras. Ou melhor: tentando seduzi-las para que preencham um vazio que se alarga na medida em que o texto seguinte à frase “o cavalheirismo morreu”, permanece oculto.

Ah, mas como eu queria contar essa história! Não somente porque me entristece imaginar que minhas filhas crescerão em um mundo mais rude, mas porque preciso exorcizar, tirar de mim algumas imagens!

Por outro lado, se cultivo ainda a esperança de um dia me encontrar com esse texto, não posso apagar o olhar suplicante e humilhado da mulher e suas sacolas. Nem tampouco aquietar as histórias que ela deixou escapar nos olhos negros, fundos, silenciosos.

Não, não há como esquecer a cena. É preciso guardá-la comigo. Carregá-la pelas ruas, em meio à chuva, o vento, o frio: ela é a chave para o sótão onde costumam descansar os textos arredios.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

E aí, meu irmão?


Elliott Erwitt

- Pô, cara, tu viu só o que a guria fez com o Coelho?

- Tá falando da treta lá do primo?

- É, meu irmão! Aí, ó... Fosse comigo, não sei não, cumpadi...

- Fazia o que? Pagava mico por gata de rua?

- Tá me estranhando, veado?!

- Quem te contou a parada?

- A Marina. Esqueceu que a mina anda com a Marina, mané?!

- Leva a mal não, meu irmão, mas essa guria é barra pesada... No teu lugar não confiava...

- Confiar o quê, mané? É só uns amassos, vou assinar papel não.

- Aí, ó, a galera lá do morro tá de olho nela. Saca o Waldir? Pois é, diz que ele andou dando uns trancos e...

- Que tranco o quê, palhaço! Num tá vendo que a gente tá junto?

- Tu não disse que era só uns amassos, cumpadi?

- E é... Só que por enquanto o material é meu, falou?

- Mas é mané, mesmo! Depois não diz que eu...

- Que o quê, veado?

O rapaz dá uma gargalhada, puxa o boné para trás, busca uma música no mp3 e responde:

- Fica frio, meu irmão!