quinta-feira, 14 de maio de 2009

Eu só quero chocolate


De todos os vícios que tive o chocolate é o que considero mais funesto e o único que me faz sentir uma alma fraca e sem salvação. E não é à toa: a lembrança mais tenra que tenho de mim é agarrada a um saco de bombom sonho de valsa, presente de um velho amigo da família, o Babá, que cedo descobriu o caminho mais fácil para agradar aquele pequeno ser em formação. Eu tinha 3 ou 4 anos de idade.

São quase quatro décadas de vício. E uma extensa lista de frustrações, desejos, esquecimentos e pequenas alegrias. O feitiço, um chocolate em forma de quadrado que vinha embalado em um brilhante papel com listras vermelhas, faz parte da seção nostalgia – nunca entendi porque tiraram ele do mercado! Assim também como custei a engolir a troca do nome lollo, “o chocolate fofinho da Nestlé”, por milkbar: até hoje, se me descuido, peço ao vendedor o primeiro.

Essas lembranças, no entanto, são inofensivas perto de outras que me assombram às vezes. Há caixas que nunca deveriam ser abertas pela memória: acabo de me pegar abrindo a mala de uma tia e comendo vorazmente todos os bombons importados da linda embalagem que ela ganhara do noivo... Vejo-me nervosa, com os bombons entre as mãos suadas: “Só mais um”. E entre um suspiro e outro, a caixa vai esvaziando, não há como disfarçar os espaços em branco. Quantos anos eu tinha, então?

Mas foi na adolescência que o vício me fez ainda mais torpe. Foi quando descobri que o chocolate era uma excelente moeda de troca: aceitavam na escola, na praça e até em casa. Lembro das vezes que negociei barras de chocolate para fazer sozinha, os trabalhos que deveriam ser em grupo. E também das caixas que pedi para perdoar as pequenas brigas com os namorados ou ainda das diversas vezes que comi meu ovo de páscoa de uma só vez, para depois implorar pedaços aos irmãos que nem sequer tinham desembalado os seus. Isso sem falar dos chocolates que eu escondia no armário, entre as roupas, incapaz de dividir com quem quer que fosse.

Um vício assim, não se mantém impunemente. Prova disso são os abismos provocados pelas diversas tentativas fracassadas de abandonar o chocolate. Não sei em que momento da minha vida eles foram associados à sensação de preenchimento ou felicidade. É possível mesmo que venha da infância, quem sabe daquela noite quando a família se preparava para mudar de cidade e eu me despedia dos avós comendo chocolate.

Mas o que importa? Eles continuam aqui, ao meu redor. Sempre visíveis e à mão – são tão baratos e fáceis de encontrar! Ah, macacos me mordam! Sinto saudades do cigarro. Um vício perigoso, é verdade. Mas que nunca alimentou minha ilusão de saciedade.

O chocolate fere por isso. Ele quase preenche os enormes vazios abertos em minha alma e, de repente, záz! Tudo tão rápido e fugaz! Não, eu não consigo largá-lo. E agora, depois de ceder a vários deles, me arrasto no chão – movida por uma profunda tristeza, uma solidão cujo doce não consegue mais apagar.


Para comer ou ouvir

6 comentários:

Alexandre Viana disse...

que delícia... lembrei que tem um tablete de laka escondido na geladeira, combina muito com madrugada.

Lu Gomes disse...

Acho que o vício por chocolate é tão inofensivo, que deveria ser considerado uma virtude! rsrs Afinal, o bem estar que ele proporciona faz mal a quem? A ninguém. Aliás, só a nós mesmas (com o passar dos anos, graças à alteração do metabolismo)rsrs, mas nada que justifique o abandono. Então, viva ao chocolate e ao prazer!!!!
Bjs.

Márcia Corrêa disse...

O que nos assombra são os sentimentos e revelações que acompanham o vício. Um egoísmo enorme ali, escondido debaixo das roupas no armário; um ilícito fugaz aqui, na caixa bonita da tia, surrupiada em volúpia... e assim vemos, comemos, choramos nossas pequenas mazelas.
Mais um texto... como dizia o Elson... redondinho. Bjs!

Lets de Assis disse...

Feitiço...hummmm... que saudades!

anareis disse...

Estou fazendo uma campanha de doações para meu projeto da minibiblioteca comunitária e outras atividades para crianças e adolescentes da minha comunidade carente aqui no Rio de Janeiro,preciso da ajuda de todas as pessoas de bom coração,pode doar de 5,00 a 20,00, Doações no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3 Que DEUS abençõe todos nos.Meu e-mail asilvareis10@gmail.com

Anônimo disse...

Vássia,

Adoro também esse poema, principalmente por mais um tema favorito', ou melhor, neste, a minha guloseima favorita: chocolate!
É chocolate, é de chocolate.

Bj grande,

Simoni Valadares