quarta-feira, 20 de maio de 2009

Curiosos e exibicionistas


Minha filha fez um Orkut. A notícia caiu como uma bomba sobre mim. Senti os estilhaços ferir a diplomacia e a tranqüilidade. Sem elas, perco a compostura. Tive ganas de chacoalhar o pequeno corpo a minha frente, gritar impropérios, escancarar a porta, bater no teclado, arrancar o fio da tomada e ser absolutamente autoritária: Saia agora! Mas a crença na liberdade me impediu de fazer isso e desde então, a rede de amizade entrou para a maior de todas as minhas coleções – a de demônios que me atormentam sem que eu consiga expurgá-los em um texto.


Sempre defendi a idéia de que não podemos criticar aquilo que desconhecemos de todo. E não fossem as exceções – eu não preciso ler um livro inteiro do Paulo Coelho, por exemplo, para saber que não gosto do que ele escreve –, eu seria obrigada a fazer um orkut para só depois opinar sobre o uso da rede. Mas isso não foi necessário porque mesmo sem procurar, sempre soube desta ou daquela novidade a respeito de pessoas conhecidas. Vem daí a origem de minha desconfiança inicial e depois da absoluta certeza de que o orkut é a mais perniciosa de todas as redes sociais na internet. E que só existe graças a dois tipos de gente: os curiosos e os exibicionistas.


Dito isto, penso nos amigos: nove em cada dez possuem um perfil na rede. A constatação quase me faz desistir da crônica. Mas lembrei-me das exceções – nem todos usam o orkut como uma vitrine deformada de suas realidades – e também do fato de que a curiosidade, no final das contas, não chega a ser um problema. Redimidos os amigos, me sobra o extenso grupo de conhecidos e desconhecidos. Pessoas que por alguma sombria razão precisam expor ao mundo suas intimidades, os momentos familiares, as pequenas alegrias, as conquistas, aquisições, viagens, amores e outras coisas mais. Isso é coisa que sempre me intrigou. Por que cargas d´água alguém se expõe gratuitamente e de maneira tão ostensiva?


A pergunta me veio depois de lembrar um episódio recente. Há tempos eu não tinha notícias de um velho conhecido, alguém que no passado foi um grande companheiro de trabalho, amigo de copo e de papo. A única coisa que sabia a seu respeito era que enfrentava um momento dificílimo na carreira, tinha perdido a família, o carro, a casa e estava desempregado. Ora, imagine o susto que levei quando outro amigo me escreve informando que o fulano devia estar ótimo, pois no orkut dele não havia uma foto ou mensagem que indicasse as tormentas que ele vinha enfrentando nos últimos anos: “A vida está um paraíso, minha filha, e se aquilo for o fundo do poço, então é pra lá que eu quero ir!”, brincou o mensageiro das notícias.


Tenho ouvido histórias semelhantes a esta desde que a febre do orkut tomou conta da internet. Foram tantas que perdi as contas dos conhecidos que enfrentavam seus demônios postando na rede um paraíso artificial. Aliás, esta é a outra característica dos usuários (pelo menos no Brasil) que considero inquietante: por que essa fixação em mostrar felicidade mesmo quando ela não é real? De tanto procurar reposta, me dei conta de que a questão tem tudo a ver com a pergunta anterior, sobre a exposição gratuita e ostensiva. Foi quando comecei a formular a hipótese do vazio: o orkut é uma válvula de escape para os medos, fracassos e fragilidades com as quais o ser humano não sabe lidar.


Aí, ninguém escapa. E fica fácil compreender tanto os exibicionistas – seja em suas demonstrações desmedidas da intimidade ou a criação de fantasiosas existências –quanto os curiosos, que gastam horas vasculhando a vida alheia. É que no final das contas, tudo não passa de uma grande e branca ausência. Uma massa invisível, matéria-prima dos vazios existenciais.

Em relação a eles, aos vazios existenciais, a única certeza que tenho é que cada um busca a melhor maneira de preenchê-los. No meu caso, por exemplo, escrevo. E quando não consigo, como muito chocolate. Mas isso não me dá o direito, é claro, de afirmar que essas são formas melhores de lidar com questões tão delicadas como as ausências individuais. Afinal, quem pode julgar isso?

Sem respostas, continuo com a coleção intacta, embora um pouco mais tranqüila. Porque o tempo de fazer esta crônica foi o mesmo que minha filha levou para satisfazer sua curiosidade (sim, ela faz parte do grupo de curiosos!), xeretar a vida alheia na rede e retornar com as mãos vazias, os olhos tristes e o coração quebrado.


Ela desistiu do orkut, eu sigo sem nunca ter tido um.



P.S. Alguns vazios simplesmente deixam de existir ao ouvir a Nina...

6 comentários:

Márcia Corrêa disse...

Guardadas as devidas proporções, por quê a vida tem que ser um absoluto segredo? Somos tão individuais quanto parecidos nessa caminhada. Fiz um orkut, à princípio para acompanhar as páginas das minhas filhas. Depois fui gostando aqui, desgostando ali. Só acho que o terreno das motivações de cada um é mesmo de cada um, e muitas vezes essas motivações não ficam claras nem para cada um. Penso que o orkut é como na vida, há quem se exiba, há quem se comunique, há quem comunique o que interessa comunicar, há quem crie fugas, enfim, há de tudo um pouco e muito. Mas, o terror está mesmo em como utilizamos as coisas, no mundo virtual e no mundo concreto, porque real ambos são e isso é uma outra e longa discussão. Bjs!

Márcia Corrêa disse...

Ah! Nas crônicas e nos poemas que escrevemos também exibimos, e muitas vezes com maior profundidade, nosso mundo particular e íntimo. E ainda deixamos por conta do observador a criação das imagens que sugerimos com a escrita.

Analuka disse...

Interessante teu texto, e pertinentes as observações sobre o modo como nós humanos tentamos "preencher vazios"... Também concordo com a colocação inicial, de que não podemos criticar ou avaliar o que não conhecemos. Lembro-me que, quando fui convidada (por minhas irmãs!) a fazer parte da rede do orkut, resisti durante alguns meses, pois achava que era uma "bobagem"... Contudo, depois de receber vários convites (todos de pessoas próximas e conhecidas que já se utilizavam desta ferramenta de comunicação e entretenimento), acabei experimentando... e descobri que, como em outros campos, existe de tudo, ali: sim, existem os exibicionistas, os falsos perfis, os bisbilhoteiros, os tarados... mas, também, pessoas honestas e amáveis, dispostas a partilhar idéias e conhecimento, afeição genuína. Conheci muitas pessoas bacanas através desta rede (como a Ursa Chris, hehehe!), vários poetas, pintores, escritores, artistas, pensadores que hoje fazem parte de meu grupo de amigos, "virtuais" ou não!... Portanto, penso que tudo depende do modo como nos utilizamos das ferramentas à nosso dispor: para o bem, ou para o mal, para criar falsas ilusões, ou propagar idéias, esperanças de que a vida não é feita apenas de "vazios". Além disso, concordo também com o comentário da outra leitora: porque nossa vida deveria ser sempre um "segredo"? Mostrar ou não ao mundo o que e quem somos, o que sonhamos ou inventamos, é direito de todos, tanto quando não mostrar, se esta for a preferência. Áh! E, para "inventar mundos" ou lidar com os vazios inevitáveis, também pinto, escrevo, e sonho!... Abraços alados.

Lets de Assis disse...

Absolutamente amei tua reflexão! Comentei e compartilhei pelo GReader com todo mundo. Por quê? Porque tu sabes que sou uma viciada em orkut, twitter, myspace, etc, etc... E como usuária desde o início do orkut (março de 2004), me sinto habilitada a confirmar muito do que vc disse. Já me foi motivo de conflito, de dor, de curiosidade, de alegrias, de exposição, de calorosos encontros, de miséria humana, de mal entendidos e de toda sorte de coisas a que estamos sujeitos nessa viagem de vida! O orkut é parte do que somos e reflexo de como agimos

Archibaldo disse...

Achei que nunca fosse encontrar uma utilidade para o Orkut. Mas agora vejo que, sim, é um baita mote para uma crônica ótima.

Lu Gomes disse...

Esta crônica me lembrou do livro "A insustentável leveza do ser", onde Milan Kundera diz que todos têm necessidade de se exibir: uns pra uma pessoa, outros pra um grupo pequeno e outros para grupos grandes(neste último estariam incluídos os artistas). Desde esta época (já faz muitos anos que li), me tranquilizei, no meu ínfimo desejo de exibição e se é assim, cabe a nós nos exibirmos pra quem quisermos. Quanto aos vazios, cabe a nós também preencher com aquilo que nos faz bem ou nos engana bem! rsrs. Como diz a música, não me lembro se de Gil ou Caetano, "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!!!"
Bjs.