quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ela descobre o rock


Para Anaís

(leia ouvindo o Jimi)

Ela chega trazendo nas mãos uma folha de papel em branco. Estou no meio de um texto, com várias janelas de pesquisa abertas na tela do computador. Tento explicar que não é uma boa hora para conversa, mas sem arredar o pé do lugar, ouço-a repetir, desta vez franzindo a testa, a pergunta feita anteriormente. “Mãe, é sério, preciso saber agora: quando vou poder ser roqueira?”.

Respiro fundo e deixo pousarem, quietas, minhas mãos sobre o teclado. “Você me ouviu, mãe?”. “Sim, querida, ouvi”, respondo. Vencida pela insistência, começo dizendo-lhe que nada a impede de ser roqueira e que não há idade para gostar deste ou daquele estilo de música. Mas sou logo interrompida. “Não, mãe. Porque quando eu for roqueira só vou andar de preto, com correntes de caveira, cinto e bota. E também vou pintar meus cabelos de rosa, igual fez minha irmã”.

Tive vontade de rir, mas a seriedade e a aflição estampadas no pequeno rosto oval, onde descansam dois olhos grandes, brilhantes como um par de vaga-lumes, fez-me desistir.

Agarrei, então, as miúdas mãos. E me deixei levar por essa pequena de sete anos que espalha pela casa seus desenhos coloridos, constrói castelos, sobe em torres, conversa com bichos, monstros e amigos invisíveis. Que ora se transforma em cachorro, outra voa como um pássaro e tem poderes de super-heróis.

“Com que idade você acha que pode ser roqueira?”, quis saber. E ela, sem titubear, respondeu: “Ah, pensei em dez anos. Pode ser?”. Feito o acordo, me estendeu a folha em branco e pediu que eu escrevesse o que tinha resolvido. “Como assim?”, perguntei curiosa. “Ora, mãe, escreve aí que você vai ficar sabendo”.

“Começa colocando dez anos – disse ela – e depois, bem grande, escreve: ROQUEIRA. Aqui – apontando para o extremo da folha de papel –, tem que colocar Roupa, e embaixo: PRETA. Agora, o mais importante, mãe! Escreve aqui, ó – e coloca o dedo no canto direito do papel: FESTA.

“Mãe, você já foi a alguma festa de roqueira?”, quis saber então. Ai, ai, ai... Senti um aperto na boca do estômago. E um friozinho fino, desses que faz levantar os cabelos inexistentes da nuca. Então solto um profundo suspiro, deixo de lado meus pudores e minto. “Ah, filha, não fui muito a festas, não...”, “Eu preferia outros tipos de programa, como andar a cavalo, tomar banho de rio, essas coisas”.

“Sério?”, perguntou meio desapontada. E sem me dar tempo de responder, emendou: Eu vou viver em festa, e tudo de rock! Mãe, anota aí também o que tem que ter na festa – e com aquela expressão de honestidade tão característica das crianças, foi dizendo animada: brigadeiro, refrigerante, bolo...

2 comentários:

Flávia disse...

Muito bom Vássia. E do jeito que anda o mundo da música, vou ficar bem feliz se a Flora vier com essa história de ser roqueira.....

Um Beijo Grande

Márcia Corrêa disse...

Com brigadeiro e refrigerante deve ser rock pauleira eim??? rsrsrs