quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ressaca


Toni Frissell

A amiga escreveu uns poemas e pede minha opinião sobre eles. Mas o que dizer-lhe se também eu ando a procura de respostas? Não sei como confessar-lhe que agora mesmo sigo as linhas como quem equilibra, num fio, as derradeiras esperanças. Que percorro descalça e nua a cadência das palavras – não quero assustá-las com a minha presença –, prendendo a respiração para que das fendas abertas nas entrelinhas, nada me escape.

Quão inúteis são os meus cuidados: entre o verbo e o verso, há a ressaca engolindo a praia, açoitando pedras, muros, arrastando casas. A maresia me joga, na face, a mesma nuvem cinza que vejo pairar sobre a cabeça branca dos velhos pescadores – até onde chegará o mar?

Procuro em antigas folhas um sinal. Quero desfazer o caminho para alcançar o início de alguma história, o esboço de um poema inacabado. Mas tudo se desfaz em líquido silêncio. Como se me escapassem as vozes que até ontem sussurravam aos meus ouvidos: vem!

(Leio os poemas e deixo que eles também me leiam)

Minha alma afunda na espuma das ondas. O mar me empurra, eu vou.

2 comentários:

Chris Mayer disse...

Amei, tocou...
Beijo
Chris

Flávia disse...

Lindo Vássia...
deixar que eles(os poemas) nos leiam é realmente necessário.
Beijo Grande