quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A dança das palavras


Se não sofresse com as palavras, queria ser bailarina. Não tenho certeza se a ordem das coisas é mesmo esta. Porque há vezes que penso que vivo entre textos por não ter conseguido dançar na fúria dos sentimentos.

“A culpa foi da minha primeira professora de balé!”, eu poderia dizer. Mas seria desonesto, porque para a dança me faltaram o talento, a força, o ânimo e a coragem de expor as limitações desse corpo imperfeito que habito há quase 40 anos. Isso sem falar na disciplina. Soube o quanto era necessária porque cheguei a casar com um bailarino e, confesso, essa foi a época que menos frustração senti por não ter seguido o desejo de menina.

Não, não era para mim aquela vida de restrições e exercícios exaustivamente repetidos! A descoberta – é uma pena imaginar que a alma demore tanto a se aquietar com as preguiças do corpo – me empurrou ainda mais para as folhas em branco que, naquele tempo, existiam em pastas. E doíam mais do que a tela do computador, hoje tão facilmente fechada e esquecida.

Esquecida mesmo como esta crônica: encontrei-a casualmente em uma das muitas pastas virtuais que crio, dominada por uma necessidade de ordem na qual nunca me encaixo. O título era outro e na tela se lia apenas o primeiro parágrafo.

Claro que não me recordo do impulso que me fez começá-la e, muito menos, do desespero de não tê-la terminado. Mas até gosto disso: é como se eu tropeçasse em um livro desconhecido e, mesmo assim, me descobrisse um pouco nele. Afinal, não foram minhas as primeiras palavras? Ou terão sido inventadas?

Quanto a isso, nunca estou certa.

Um comentário:

Analuka disse...

Sim, também nas e com as palavras dançamos!... assim como dançamos com os pés, com o piano, com as cores!... Tão belos os balés poéticos, em suas errâncias e movimentos por vezes inconclusos, os vôos e saltos literários, os giros coloridos que nos levam adiante e além!... Abraços alados azuis.