quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O discurso do rei


Ocorre que final de ano é tempo de faxina. Hora de vasculhar bolsas, malas, armários, sacolas – guardo várias embaixo da cama! E também tristonhas pastas e caixas, fiéis depositárias de meus esquecimentos, descuidos, promessas: Ah, como ferem esses papeis amarelados, apagados por um tempo que não existe mais, senão na indolente lembrança! São como sulcos na face antes clara, limpa, fresca.

Inebriada pelo aroma do alecrim sigo revolvendo a terra. Essa terra na qual plantei o resultado de minhas escolhas, terreno árido, esmaecido em alguns pontos. Como aquele ali, vê? Um morro de pedras, cacos, cinzas.

Então minha alma goteja. O suficiente para lembrar-me das ostras que coleciono, das flores que insistem em brotar em recantos guardados pela chuva e o vento, enquanto febris borboletas voam.

São como fios de cabelos de sonhos, as asas das borboletas. Gosto delas. E também dos caracóis imaginários, do louva-deus que outro dia fez-me quebrar um copo, das lesmas sobre os verbos à espera de sujeitos e predicados, das formigas, dos fantasmas dançando tango em minha cozinha.

Minha faxina é quase uma floresta. Há sombras, riachos, mães-d´água, rios de correntezas, pororocas, sumidouros. Troncos, folhas, frio, festa, fúria. Embarcações, balseiros, barrancos, besouros. E asas, muitas asas.

É nelas que me agarro para sobrevoar os ciclones de mais um ano que morre. Porque é urgente sobreviver. E fazer das pequenas tragédias, um recomeço – Há quem diga, mas não posso afirmar, de certa inclinação para fênix...

Perdão, perdão leitor! Tanta coisa a ser feita e eu aqui, aborrecendo-o com essas divagações. Viremos, pois, a página (ainda que eu creia ser ela a explicação). Nada de faxinas. Falemos das listas, famigeradas testemunhas do indubitável desejo pelo porvir.

Não as faço mais, juro. Abandonei-as há anos e por uma razão que me parece simplória, mas honesta: desisti de ferir minha pele com chicotes criados à caneta bic.

Coincidência ou não, a decisão veio acompanhada da maturidade de uma ideia, uma espécie de sentimento que saiu dos domínios da abstração para grudar na concretude do corpo. É necessário se desfazer de tudo aquilo que é incapaz de promover verdade, alegria, solidariedade, respeito, esperança, fé, amor. Já não é tão triste o mundo?

Por isso queimo listas. Deixo que o fogo consuma o que de alguma maneira permiti que entrasse em meu jardim para acabar com as folhas, flores, frutos – alimento para meus sonhos e a barriga dos passarinhos.

Se funciona? Claro. Tanto que não me recordo das pragas queimadas no último réveillon, passado com os pés na areia e o beijo de Iemanjá.

Sim, tenho pronta a lista que entregarei este ano ao fogo. Não é extensa – e confesso isso com alegria – mas faz-me sofrer pelo que tem em comum com as palavras, pois não são elas que constroem os discursos?

E foi pensando assim que perdi noites de sono: Se amo tanto as palavras, como queimá-las? (Não se engane, leitor. Não é fácil o ritual. Porque não se trata apenas de acender um isqueiro ou riscar o fósforo. Há que obedecer a força guardada no universo).

Então, madrugada dessas, meu espírito encontrou novamente paz. Constatei, banhada pela luz da lua nova, que palavras nada tem a ver com simulacros. Veja, estou falando de palavras. Não desses penduricalhos verbais que parecem sair da inspiração, quando na verdade resultam de minuciosas estratégias.

Suspiro. Empunho a caneta e traço, no topo da minha lista, a forma daquilo que antes mesmo de virar cinza, nunca me disse respeito.

Eu digo não. Não à farsa, à mentira, à manipulação das palavras. Tudo porque as amo. E acho justo que sua morada não seja o simulacro, o discurso vazio de um rei.

3 comentários:

Anônimo disse...

Querida amiga,

Estamos nós, a sós, com nossos torvelinhos. Os seus, lindamente, explicitos em palavras; os meus,por envergonhados, saem pelas portas do fundo do coração.
Saúde para você e para os seus amores.
Leila Jalul

Marce disse...

Muitos sabem o que falar, mas poucos tem o verdadeiro dom da palavra.
Lindo, lindo

jose vitor Lemes disse...

Muito bom, algo semelhante a dom de espargir palavras no contexto sem fugir do texto; pelo contrário, faz a leitura ficar intrínseca, pondo assim o leitor dentro na decisão de riscar o fósforo ou não.