quinta-feira, 15 de abril de 2010

A gente esquece (?)



Para Clara

Como foi o seu primeiro beijo? A pergunta me lança no labirinto cinzento da memória. Busco pela menina que fui, na tentativa, última, de não romper a magia que vejo nesses olhos grandes e profundos que me interrogam. Como dizer, simplesmente, que já não me lembro?

Terá sido o vizinho, o primeiro beijo? O primeiro amor? Vejo-a na ânsia de seguir-me nos corredores estreitos e sinuosos das lembranças. Como se pudesse, ela também, alcançar a garota em seu vestido de bolinhas. E tocar-lhe os dedos, segurar-lhe as mãos até que conte seus medos, desejos, segredos.

Ah, lembranças traiçoeiras! Em que caixa escura eu escondi a verdade desses primeiros anos? Onde deixei mofar a alegria inocente dos primeiros suores, calafrios, palpitações? Em que cadernos rabisquei o teu nome, primeiro amor?

Há um mês ela ainda era uma menina. Tenho certeza que sim. Mas agora, rompido o coração e a boca, vejo crescer no olhar outra imagem. Tenho medo. Busco sinais inequívocos de que ainda resiste nesse corpo que se transforma, uma alma de criança. Mas é tudo tão novo, tão raro. Saberá ela que sua adolescência também me modifica? O que eu fazia aos 12 anos? –brincava de boneca, cuidava dos irmãos ou desaprendia o silêncio?

Aos 12 anos minha mãe tomava pela primeira vez coca-cola e viajava de avião. A história é contada, até hoje, com um riso nervoso. Como se a mulher desse lugar à menina do sertão, aquela que acabava de sair de Souza, com outros seis irmãos, e pela primeira vez sentava em uma poltrona macia, sentia o frio do ar-condicionado, o ronco das turbinas nas asas da aeronave e o borbulhar dos gases roçando a língua em cada gole do refrigerante.

Enternecida pela imagem daquela criança feliz e amedrontada, tento fugir. Mas não há como. Sou arrastada pela fúria dos sentimentos e açoitada pelo terror nos olhos grandes da menina de Souza a cada vez que a aeromoça se aproximava da poltrona oferecendo mais refrigerante, chocolate, maçã – “Eu nunca tinha visto uma coisa tão bonita como aquela, uma maçã!”. O olhar silencioso interrogava o pai: posso aceitar?

Não, querida. Não lembro o meu primeiro beijo. E, no entanto, revivo-o hoje, com o mesmo frescor de antes – porque consigo enxergar em teus olhos, algo da menina que fui.


Para ouvir beijando, Fly me to the moon só com Sinatra, em dueto com Jobim ou na voz de Diana Krall.

3 comentários:

Maria Teresa disse...

Vássia:
Você externou o momento mágico de todos nós, com seus suores e calafrios, com sua magia perene.
Que delícia foi lembrar lindamente o primeiro beijo!
MTeresa

eduengler disse...

Do meu 1º beijo eu lembro Vá.
Heis, que segue então a continuidade aprimorada.
beijocas

Edu

Clara disse...

Mãe, saiba que eu adoro ouvir suas histórias, imaginar como foi sua adolescência. E obrigada, mesmo por não lembrar, me tranquilizar.

Beijos, Clara
Ps: Te amo