quinta-feira, 22 de julho de 2010

Dia cinza

João Ferreira


Nesse dia cinza e frio, resolvo revirar caixas em busca de antigas cartas. Lá longe, o barulho de uma serra corta os pensamentos brancos. Sigo desnuda procurando algo que me resgate da paz intranquila, dessa ausência de cheiros no meu quarto de mulher.

Lembro, então, do fogo extinto das antigas e mortas paixões. Mas no espelho, meus cabelos, dos quais já nem lembro a cor original, desmentem qualquer alegria. Há uma ruga nova no canto do olho esquerdo. Veio silenciosa, fincando na pele a aspereza de algum dia perdido no labirinto das minhas lembranças. Esse lugar que tanto insisto em percorrer, mas que de mim se esconde. Como se não houvesse mais caminho senão o do esquecimento.

Um carro qualquer acelera no asfalto. Ouço-o partindo ou chegando. Quero inventá-lo, agora. Como se dele pudesse surgir a história que procuro.

Da caixa vejo sair envelopes de cores e tamanhos diversos. Papéis finos, caligrafias que me remetem a lugares que não reconheço mais. Como é distante o tempo que não nos pertence! Sinto-me cansada. E penso na imagem das velhas senhoras ao redor da mesa: cabelos brancos, mãos desenhadas por veias, rostos cujo cansaço imprime na face os anos, as décadas de luta.

Elas sorriem e eu sorrio também: O amanhã, esse minuto posterior ao qual escrevo, me aguarda. Terei eu, alguma coisa a contar aos netos?

Um comentário:

Flávia disse...

Que ótimo vássia... singelo e profundo!!!

Abraços,
Flávia