quinta-feira, 7 de julho de 2011

A casa

Henri Matisse

Manter uma casa funcionando exige talento. Não basta ter disposição para limpá-la porque sem a dedicação diária de esmiuçar-lhe os mecanismos, toda a energia gasta para varrer e encerar o piso pode ser em vão. Por isso algumas vezes invejo as exímias donas-de-casa. Essas que comandam seus lares com a mesma inteligência de um general, sem precisar sujar de sangue – ou poeira e gordura – as mãos.

Conheci uma assim. Ela não fritava ovos, não fazia arroz, não lavava louça e nunca, jamais, soube o que era o cabo de uma vassoura. Mas a pouca intimidade com os afazeres domésticos não lhe impediu de coordenar a leva de empregadas. Eram quatro no total: uma para a cozinha; outra para roupas e sapatos; uma terceira para a casa e, por fim, Mariana – responsável pelas contas no banco, o supermercado, os mimos às crianças, os serviços das outras funcionárias e as crises existenciais da patroa.

Mariana chegava cedo ao trabalho. Levantava às 4h da manhã e às 5h30 estava na ampla cozinha ditando os cardápios do café, almoço, lanche das crianças e jantar. Bolo de milho, pão fresquinho, ovos mexidos, queijos e vitamina não podiam faltar à mesa – ainda que nenhum membro da família, a não ser os pequenos, mantivesse o hábito de nela sentar para fazer as refeições.

Mas em dias de festa, fazia gosto olhar os finos pratos, talheres e taças sobre o tampo da grande mesa de jacarandá. Mariana não dormia em casa, nessas ocasiões. Deixava os filhos pequenos com a vizinha porque a sogra não ajudava com os netos. “Comigo não, Lampião”, dizia a velha explicando às comadres os motivos pelos quais negava o favor ao filho e a nora. “Vê só, é certo um troço desses? Largar os meninos aqui, sem eira nem beira, pra esticar cabelo de filho dos outros?”.

Mariana não dava ouvidos às reclamações da sogra. Sua preocupação era com as prestações da TV de 32 polegadas e o computador da filha mais velha. No começo ainda perdeu sono com os sumiços do marido – que ao notar a ausência da mulher resolveu emendar plantão – e o cheiro de álcool nas camisas borradas de batom. Depois, achou por bem se dedicar às necessidades da patroa. Porque era dali que tirava o ganha-pão e os pequenos luxos que agora podia dar senão a si mesma, aos filhos.

A patroa, por outro lado, pouco sabia da vida de sua secretária. A ela não importavam o rosto inchado e o olhar cada vez mais perdido de Mariana. Não tinha tempo para esses detalhes, tão carregados de angústia e deslizes. Sua preocupação era a casa.

Gostava de imaginar a sincronia dos corpos lavando, passando, encerando, organizando os espaços que, com tanto trabalho, conseguiu decorar. Também lhe agradava sentir a respiração tranquila dos filhos na cama; o silêncio ao cair da noite; o perfume das rosas que pediu à Mariana para plantar em volta da piscina.

Sim, ela acreditava em felicidade. E reconhecia o peso que era digladiar, diariamente, com proletárias que não sabiam nem encerar, nem passar, nem lavar, nem cozinhar. Por isso mantinha o bom salário e as pequenas regalias de Mariana.

Sabia, afinal, que não era fácil ter uma casa. Muito menos funcionando.

5 comentários:

beijamim disse...

Muito boa tua história e teu texto. Tenho acompanhado e está cada vez mais humano e sincero. É isso aí, deixar a alma fluir sem covardia e olhar agudo.
Você bem que poderia, através de tuas crônicas cotidianas, dar muitos recados para realidade acreana atual. Creio que deveria postar nos jornais também, numa coluna, caso já não esteja fazendo isso.
Quanto a este último texto, mostra bem o que é a vida da maior parte das mulheres do povo, eu fico imaginando esses sacrifícios resignados, e sei que não seria capaz de fazê-los. Só sendo mulher. É bom compreender isso, a gente acaba respeitando vocês (grandes doces saborosos para nossa mentalidade um tanto deformada) um pouco mais com os pés no chão. Parabéns.

Luiz Claudio disse...

Tava te devendo uma visita. Aproveitei e coloquei a leitura em dia.

Beijo.

Luiz

Anônimo disse...

Pois bem, se queres saber, eu adorei! E gostei ainda mais porque é tão verdadeira que dói se ver espelhada nela... não na Mariana: na crônica! rsrsrs

Leila

Anonima disse...

História brilhante, emoção pura! Adoro ler teus escritos.

Anonima disse...

Brilhante. Emoção pura! Adoro teus escritos. Adelaide Albuquerque