quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Branca nuvem em céu escuro

Bert Hardy

Afasto-me do burburinho, dos lero-leros. Das distrações que desencavam, em mim, a fome pelos equívocos. Vejo morrer, sob a poeira invisível dos simulacros, a doce lembrança do cheiro alecrim e a rota incerta das pequenas mãos, a sapiência da língua.

Tudo ao redor vai se refazendo no silêncio: escuto, então, o brinquedo da filha da vizinha caindo no chão; a cadeira arrastada; a tampa da panela que arranha o fogão; as rodas dos carros roçando o asfalto molhado; as gavetas abrindo e fechando; o bocejo do morador ao lado; um ou outro passarinho clamando colo quente.

Há em mim agora uma ausência completa. Uma coleção de interrogações penduradas nos galhos das jaqueiras e mangueiras que trouxe da infância e plantei na alma. Fazem sombra, as árvores. Em dia de sol, deito-me esquecida do mundo sob elas.

Lá no mar, um barco ancorado desencava memórias. Não é de pescador, não é turístico. De onde vem esse barco? Para onde vai? Meus olhos estirados até ele, como se esse prolongamento fosse o bastante para que eu me sentisse a bordo. Quanto tempo mais?

E então as cigarras pressentem a brecha das nuvens e cantam uníssonas. Os pássaros não se animam a acompanhar. Devem ter cochilado, aninhados na herança deixada pela noite que se foi.

Tudo é branco lá fora. 


Um comentário:

Angela Maria Fernandes Fontes disse...

Parabéns Vássia, você continua essa pessoa sensível, que consegue captar das mais singelas cenas e movimentos do cotidiano a inspiração para escrever lindamente. Me identifiquei e me vi logo no início dessa crônica. "Afasto-me do burburinho, dos lero leros. Das distrações que desencavam em mim, a fome pelos equívocos". Essa sou eu também, tentando me livrar dos equívocos.
Grata pela bela articulação de palavras e ideias.
Bjo